Imagem: World Athletics
Como é que uma corrida de 400 metros pode ser mais difícil que uma de 800 metros? Ou até mesmo mais desafiadora que uma maratona inteira? Embora não haja uma resposta definitiva, existe um certo consenso entre atletas e especialistas no universo do atletismo: a prova mais dura é a dos 400m.
Isso pode parecer contraintuitivo, mas o que torna essa distância tão especial é o fato de ela exigir o máximo do corpo em termos de explosão, resistência e capacidade de lidar com a fadiga — tudo ao mesmo tempo. O principal motivo para essa dificuldade é a forma como o corpo utiliza seus sistemas de energia ao longo da corrida.
Três sistemas de energia
Para entender como o corpo se comporta durante essa prova é importante antes saber distinguir os três sistemas de energia em que um atleta utiliza durante ela: Sistema anaeróbico não lático, sistema anaeróbico lático e sistema aeróbico.
1.º - Primeiro sistema: Explosão instantânea
Nos primeiros 50 metros, o corpo usa uma espécie de "reserva turbo", chamada de sistema anaeróbico alático. O atleta atinge sua velocidade máxima rapidamente, sem se preocupar com o cansaço... ainda.
2.º - Segundo sistema: Aguenta aí!
A partir dos 50 até os 200 metros, a história começa a mudar. Entra em cena o sistema anaeróbico lático, e aqui é que a coisa complica. Lembra da sensação de pernas pesadas? Isso é o ácido lático acumulando nos músculos, uma consequência natural desse sistema. O corpo está agora correndo rápido, mas não tão rápido quanto antes, porque começa a pagar o preço da explosão inicial.
3.º - Terceiro sistema: O sofrimento final
Nos últimos 100 metros, o corpo entra em modo "emergência". Ele tenta usar o sistema aeróbico para dar aquela sobrevida e te levar até a linha de chegada. Só que aqui, o corpo já está no limite. Ele precisa de oxigênio para funcionar, mas não consegue produzir energia rápida o suficiente. É por isso que a reta final dos 400 metros é um sofrimento: os músculos estão no limite e você ainda precisa correr o mais rápido que pode.
É como se o corpo tivesse três tanques de combustível diferentes, mas o terceiro só te deixasse usar metade da gasolina. Por isso, esses últimos metros são praticamente uma luta contra o próprio corpo.
Confira o vídeo completo abaixo:
Video: Outperform Youtube
A opinião dos especialistas
A lenda do atletismo americano, Michael Johnson, ex recordista mundial dos 400 metros e detentor de 12 medalhas de ouro olímpicas, confirmou a complexidade dessa prova. Johnson destacou: "Entender esse processo foi fundamental para eu quebrar o recorde mundial e consistentemente correr abaixo de 44 segundos."
Usain Bolt, o homem mais rápido do mundo, também exemplifica o desafio dos 400 metros. Mesmo sendo recordista dos 100 e 200 metros, Bolt já declarou publicamente que "odeia" a prova de 400 metros, evitando competir nessa distância devido ao esforço extremo e desgaste físico que ela impõe.
Quem é o atual rei dos 400 metros?
Imagem: Athletics weekly
O recorde mundial dos 400 metros pertence ao sul-africano Wayde van Niekerk, que o estabeleceu nos Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro com um tempo impressionante de 43.03 segundos, superando a marca anterior de 43.18 segundos de Michael Johnson, que havia durado desde 1999.
O feito de Van Niekerk foi ainda mais notável porque ele correu da raia 8, a mais externa, onde é difícil ter uma visão clara dos outros competidores. Essa marca sublinha a dificuldade da prova e a necessidade de um equilíbrio perfeito entre velocidade e resistência.